Processo Criativo

O processo criativo da vídeo arte Observações sobre corpos na estrada inicia-se a partir da observação da ocorrência da travessia de animais silvestres nas BA 026 e 420, que vão da BR 324 e passando pela cidade de Santo Amaro chegando na cidade Cachoeira. Havia assistido a algum tempo o documentário Guia do Pássaro Dodô para sobreviver a extinção, que fala dos principais fatores causadores da extinção de espécies. Umas dos principais fatores listados é o contato com os seres humanos, e uma das influências do seres humanos nos meios ambientes é exatamente a construção das estradas.



A partir dessas observações comecei a pensar qual a solução para que os animais silvestres não precisassem atravessar a pista para passar para o outro lado da pista. A resposta lógica para a questão surgiu como um insight. A solução seria a construção de passagens subterrâneas e barreiras que forçassem os animais a utilizar essas passagens subterrâneas. Fiz então uma pesquisa para saber se essa solução já havia sido aplicada em alguma estrada no Brasil. Descobri que vários projetos neste sentido estão em andamento no país, como o da BR 262 no Mato Grosso do Sul e inclusive atualmente tramita um projeto de lei que prevê que os projetos a serem executados em rodovias federais e estaduais que cruzam municípios em suas áreas urbanas e unidades de conservação devem ser adaptados para conter, obrigatoriamente, passagens subterrâneas para pedestres, animais e carros ao longo da extensão da rodovia.
Não é raro cruzar com animais nestas estradas. São raposas, cobras, corujas, pássaros diversos, tatus, dentre outros. Determinei como uma meta pessoal não atropelar nenhum animal nas minhas viagens. A partir de então passei a redobrar minha atenção, principalmente nas viagens noturnas de volta para casa. Em algumas situações é muito difícil e perigoso evitar o acidente, mas venho conseguido levar a tarefa a cabo.



A partir deste interesse, comecei a perceber as diversas ocorrências inusitadas no percurso. Animais mortos, carros incendiados em pastos, acidentes automobilísticos, construções abandonadas, etc. Foi então que me dei conta de quantas coisas se passavam no trajeto e que não percebia, pois o acumulo de informações visuais não permitia à memória registrar cada pormenor. Foi então que idealizei o vídeo Observações sobre corpos na estrada, com registros dessas coporiedades não percebidas e deixadas para trás no caminho e esquecidas na memória.
A partir de então agucei o meu olhar para perceber o que havia de inusitado nesse percurso diário, e passei a registrar essas ocorrências em fotografias. O primeiro registro foi uma fotografia de uma interferência que fiz em um carro abandonado em um pasto, onde gravei a figura de um urubu inspirado no trabalho do gravurista brasileiro Oswaldo Goeldi, cuja poética aborda o abandono e a degradação.


Posteriormente fiz alguns registros em viagens de ônibus do trajeto, como exercício do olhar para o desenvolvimento de uma poética do transitar, onde tentava captar o que ficava despercebido pelo caminho.





Foi sugerido pela orientadora, Professora Valécia Ribeiro, o trabalho do artista contemporâneo norte irlandês, Willie Doherty que trabalha em suas fotografias e video a questão do abandono, da destruição, frutos de sua experiência durante a infância, quando foi testemunha do incidente que ficou conhecido como domingo sangrento. Suas obras são geralmente exibidas em um espaço confinado, que causa uma sensação de claustrofobia.







Também pesquisei o trabalho do artista brasileiro Cao Guimarães, que manipula imagens do dia-a-dia para resignificalas em sua poética do cotidiano. Sua obra Atrás dos Olhos de Oaxaca (2006) é "um pequeno eye-movie pelas estradas do estado mexicano de Oaxaca. Até que os olhos saltem de trás para frente da câmera e todo um povo se condense dentro de apenas uma retina".








A partir do trabalho desses artistas, cheguei a uma poética do transitar, lançando um olhar sobre corporeidades orgânicas e inorgânicas ignoradas ao longo do caminho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário